MIDRASH DEBATE ‘GENTRIFICAÇÃO’ NO RIO

Processo de transformação da identidade urbana é inevitável, mas moradores podem impor limites

Luiz Carlos Prestes Filho e Alexandre de Castro
Luiz Carlos Prestes Filho e Alexandre de Castro abrem o evento

A partir do anúncio de que o Rio de Janeiro seria a sede da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, diversas áreas da cidade vivenciam um acelerado processo de “gentrificação”. O termo, que vem do inglês “gentrification”, é o nome dado pelos especialistas ao enobrecimento de um determinado espaço urbano, quando pessoas de maior poder aquisitivo se mudam para lá, obrigando os moradores originais, de renda mais baixa, a se retirar. Para discutir o assunto, o Midrash Centro Cultural reuniu o sociólogo Luiz Werneck Vianna, o rapper Macarrão e o especialista em cultura da periferia Alexandre de Castro, mediados por Luiz Carlos Prestes Filho, especialista em Economia da Cultura. A palestra aconteceu dia 13 de agosto de 2014, seguida de uma visita guiada ao Vidigal, no dia 7 de setembro, para entender as transformações que vêm ocorrendo naquela comunidade.

Prestes abriu o evento, lembrando que renovar o espaço urbano, melhorar, ampliar e modernizar sua infraestrutura é um movimento bem-vindo, desde que todos possam se beneficiar disso, e não apenas uma parcela da população. Segundo ele, assim como na década de 1920, com as reformas do Prefeito Pereira Passos, os mais pobres estão sendo removidos de suas áreas de origem ou perdendo condições de seguir se sustentando naquelas localidades. “Os que não estavam incluídos continuam excluídos. Estamos atendendo as demandas da Fifa, do Comitê Olímpico, mas não a dos cidadãos, dos moradores, das pessoas que vivem aqui”, disse.

“A Zona Oeste virou depósito de pessoas indesejadas”

Alexandre de Castro, ex-interno da Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), rapper e mestre em Educação, Comunicação e Cultura em Periferias Urbanas pela FEBF/UERJ, é um dos novos “gentrificados” cariocas. Nascido e criado no centro do Rio, Alexandre se viu transferido para Senador Camará, na zona oeste da cidade. A mudança aconteceu por meio do programa de governo Minha Casa Minha Vida. “Ao receber a notificação de que eu tinha sido contemplado com uma casa própria, achei que a sorte enfim tinha batido a minha porta”, contou o rapper, que driblou a infância difícil, cursou jornalismo, mestrado e hoje se prepara para o doutorado. O que ele não sabia é que o novo lar fica no local de uma antiga fábrica de amianto, numa região abandonada pelo poder público, à mercê de traficantes, com uma vizinhança formada por pessoas de origens culturais absolutamente diversas, sem qualquer identidade com o passado dele.

Segundo Alexandre, na ânsia de cumprir prazos e atingir metas, as famílias tornam-se “números” nas mãos dos técnicos desses programas. “O poder público não tem o cuidado de ouvir as pessoas, conhecer suas raízes e alocá-las em áreas afins. Passam por cima de sua vida, sua história, com a conivência do Judiciário e dos demais órgãos fiscalizadores”, disse ele, lembrando de uma série de questões que deveriam ser consideradas pelos assistentes sociais em programas de remoção. “A Zona Oeste virou depósito de pessoas indesejadas. O poder público varre essas pessoas para áreas desconhecidas, à mercê de novos atores, como o tráfico ou a milícia. É uma bomba relógio que vai explodir a qualquer hora”, disse ele.

“Não quero o fuzil de ninguém na porta da minha casa, nem da polícia, nem do ladrão”

Macarrão, conhecido por ser personagem do documentário Fala Tu, de Guilherme Cezar Coelho, é outro que vivencia o lado cruel da gentrificação. Alexandre Magalhães, ou Macarrão, nasceu e foi criado na Vila Mimosa, tradicional área de prostituição, então situada no bairro do Estácio, no Centro do Rio. Com a remoção da “indesejável” vila na década de 1990, Macarrão começou uma via-crúcis por alguns dos bairros mais pobres e violentos da cidade. Despachado para Costa Barros, num local, segundo ele, impossível de se viver, mudou-se em seguida para o morro São Carlos. Pouco depois, uma guerra entre traficantes levou-o para a comunidade Santa Edwiges, mais conhecida como Cinco Bocas de Brás de Pina, na passarela 18 da Avenida Brasil, região notória nas páginas policiais. Não por acaso, ele diz que a insegurança é um dos maiores desafios das famílias removidas: “O simples fato do morador de uma área comandada por uma facção de traficantes ser deslocado para outra de um grupo rival é uma sentença de morte. Mesmo que essa pessoa não tenha qualquer envolvimento com o tráfico”. Macarrão também falou sobre a inépcia da polícia em áreas consideradas pacificadas: “A UPP funciona muito bem na TV. Dentro da favela, o policial age de forma diferente do que ele age aqui fora”, disse, referindo-se a casos de abusos, truculência e preconceito. “Não quero o fuzil de ninguém na porta da minha casa, nem da polícia, nem do ladrão”.

Macarrão destacou também a importância do hip hop como alternativa ao poder de atração do tráfico sobre jovens de baixa renda. Afinal, foi através desse gênero musical, que protesta contra o preconceito racial, a miséria e a exclusão, que ele sublimou a própria infância difícil, transformando a dura realidade em arte. Depois de trabalhar como apontador de jogo do bicho, de se envolver em “muita coisa ruim”, hoje, aos 44 anos, ele ganha a vida como “cronista do cotidiano”, como é conhecido. “O hip hop mudou a minha vida”, diz o rapper e roteirista, hoje casado, com uma filha formada, e à espera do quinto filho. “O rap tem a capacidade de dar algo a mais, outra referência. É como o ‘passinho’ hoje. São movimentos que vêm no sentido oposto ao tráfico”, disse referindo-se a uma variação do funk, novo sucesso entre jovens da periferia.

Luiz Werneck Vianna e Macarrão
O sociólogo Luiz Werneck Vianna e o rapper Macarrão

“Não se pode mexer numa cidade sem consultar os cidadãos, mas esses cidadãos precisam estar organizados”

O sociólogo Luiz Werneck Vianna encerrou o debate com um panorama das causas do processo singular de gentrificação na cidade. Segundo o professor e pesquisador do Departamento de Sociologia e Política da PUC (Pontifícia Universidade Católica) Rio, a partir das décadas de 1970 e 1980, o processo de capitalização no Brasil foi tão brutal e vigoroso que a sociedade não teve a capacidade de se auto-organizar. Para ele, os relatos de Alexandre de Castro e de Macarrão denunciam a natureza de um processo que trouxe benefícios, mas criou uma sociedade imobilizada e impotente. “Há um deserto de cidadania na vida social brasileira. Mexe-se na cidade sem conversar com os citadinos”, afirmou, lembrando que, em Barcelona e em Londres, a população participou do processo. “Nosso capitalismo é potente em termos econômicos e infantil em termos políticos”, disse.

Coordenador do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES), Vianna lembrou que o Brasil acaba de vencer a disputa para sediar o Congresso Mundial da União Internacional de Arquitetos (UIA) de 2020, evento de enorme relevância mundial:  “Essa é uma grande oportunidade. A sociedade precisa começar a se fazer presente nesse congresso, levando teses, denúncias, discussões. É preciso fazer com que a cidade seja discutida”. “A gentrificação é um processo inexorável, mas as pessoas podem se organizar. Os moradores têm de se defender, impondo limites e se regulamentando. Não se pode mexer numa cidade sem consultar os cidadãos, mas esses cidadãos precisam estar organizados”, concluiu.

(Júnia Azevedo)

Como Ruy Castro se tornou um dos jornalistas e escritores mais lidos do país

 

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Ruy Castro conta no Midrash como se tornou um dos jornalistas e escritores mais lidos do país

No domingo, dia 26 de maio, o Midrash Centro Cultural inaugurou o BACKES-PAPO, série de encontros comandados pelo escritor, tradutor e professor de literatura Marcelo Backes. Nesse primeiro encontro, Backes, que acaba de lançar O Último Minuto (Companhia das Letras) recebeu o escritor e jornalista Ruy Castro, autor das biografias de Nelson Rodrigues (Anjo Pornográfico, Companhia das Letras), Garrincha (Estrela Solitária, Companhia das Letras), Carmen Miranda (Carmen, Companhia das Letras), entre outros sucessos editoriais. Muito bem humorado e descontraído, Ruy contou diversos casos que marcaram sua carreira de escritor e jornalista.

Nascido em 1948, Ruy Castro falou de uma de suas primeiras memórias da infância: “Aos quatro anos, me lembro de minha mãe rindo, lendo alguma coisa no jornal. Perguntei o que era, ela me colocou no colo e leu em voz alta pra mim. Era um conto de A Vida Como Ela É…, de Nelson Rodrigues, que o jornal Última Hora publicava diariamente. Daí em diante, ela sempre lia pra mim, até que um dia eu consegui ler o título sozinho. Me lembro direitinho da emoção de decifrar a linguagem escrita pela primeira vez”.
“Comecei a ler com Nelson Rodrigues. Fui, certamente, a criança que mais entendeu de adultério no mundo”, contou Ruy, entre risos da plateia. “Eu adorava aquilo tudo. Graças ao Nelson, aos cinco anos eu já sabia ler, escrever e bater à máquina”, disse. Logo mais, o gosto pela leitura passou a incluir as crônicas de futebol: “Nelson Rodrigues era míope e, mesmo assim, narrava uma partida como ninguém. Ele não via os jogadores, mas via a alma deles”. Ruy lembrou também que foi lendo Nelson Rodrigues que ele aprendeu algarismos romanos: os folhetins Asfalto Selvagem, publicados a partir de 1959, no mesmo jornal, eram numerados em romanos.
“Na minha casa, os jornais não iam para o lixo. Não se jogavam palavras fora”
Ruy, que começou como repórter em 1967, no Correio da Manhã, no Rio, e passou por todos os grandes veículos da imprensa carioca e paulistana, falou de sua simbiótica relação com os jornais: “Na minha casa, na infância, assinávamos cinco jornais, que iam virando pilhas e pilhas, imensas. Nada ia para o lixo, não se jogavam palavras fora. É uma mania de família. Até hoje tenho esse hábito. Guardo os exemplares da semana para ler tudo no domingo. Especialmente quando o Flamengo joga. Não gosto de ver o Flamengo ser atacado e, se isso acontece, recorro ao jornal. Quando o Flamengo ataca, volto para ver o jogo”, contou o flamenguista, autor de O Vermelho e o Negro, sobre a história do time de futebol carioca.
Como biógrafo de grande prestígio e sucesso, Ruy explicou seu processo de trabalho: “Quando estou fazendo uma biografia, me torno um obsessivo. Minha esposa (a escritora Heloisa Seixas) sofre, coitada. Na biografia do Nelson, passei meses angustiado porque não conseguia descobrir a marca da escarradeira que havia na redação do jornal onde ele trabalhava. Aí, minha mulher perguntou – Mas quem é que vai prestar atenção nisso? – Ninguém, eu sei que isso não vai fazer a mínima diferença para a história, mas não posso abrir mão disso. Se abrir mão de uma informação, começo a abrir mão de outra e mais outra, e aí não faz mais sentido. Descobrir uma informação que ninguém sabe tem um prazer quase sexual”.
Outro tema abordado pelo escritor da história da Bossa Nova (Chega de Saudade, Companhia das Letras) e de Ipanema (Ela é Carioca, Companhia das Letras) foi a busca de fontes: “O mais difícil numa biografia – e o que faz total diferença – é correr atrás de pessoas que conviveram com o personagem. Nássara, Evandro Lins e Silva e Barbosa Lima Sobrinho, por exemplo, conviveram com o pai de Nelson Rodrigues, e me passaram informações valiosíssimas para a biografia dele. Jorginho Guinle foi outra fonte fundamental para mim, no livro sobre Carmen Miranda.
“Garrincha foi um homem vitorioso, dilacerado pela bebida”
Sobre a biografia de Garrincha, Ruy revelou: “Queria fazer um livro que lidasse com o tema do alcoolismo e um dia tive um estalo: Garrincha. Garrincha foi um homem vitorioso, um vencedor, que foi dilacerado pela bebida. Mas ele não bebia porque sofria. Bebia por que sua família também bebia, seu pai, seu avô… Garrincha descendia dos índiosfulniôs, de Alagoas. Essa tribo tinha o antigo costume de dar uma mistura de cachaça, canela em pó e mel para as crianças pararem de chorar. Imagino que algumas deviam passar mal, e outras, com mais tolerância, podiam acabar desenvolvendo essa propensão ao alcoolismo. O Garrincha veio desse ambiente”.
Ainda sobre o jogador, Ruy contou um dos casos mais engraçados da noite: “Levei a ideia da biografia do Garrincha ao Luís Schwartz (editor da Companhia das Letras) e ele disse – Mas, Ruy, esse livro não vai vender nada. Cinquenta por cento dos leitores são mulheres, e mulheres não gostam de futebol. Você já começa com menos 50% do mercado. A outra metade você também perde, porque quem gosta de literatura não gosta de futebol – Mas não fiz um livro sobre futebol. Fiz um livro sobre uma pessoa com uma história de vida espetacular”.
“Nunca pedi autorização para escrever biografia”
Autor de romances históricos, como Era no Tempo do Rei (Alfaguarra), Ruy falou sobre seu compromisso com a verdade nos momentos em que escreve ficção e biografia. “Um dia perguntei à neta do Guimarães Rosa onde era a localização exata do Grande Sertão Veredas. – Seu avô deve ter ido muitas vezes lá, não é? – E ela respondeu – Meu avô foi uma vez só ao sertão. Ele gostava é de ir para a Europa todo ano. – Então tudo é inventado? – Sim, senão não seria ficção”, contou entre risos.
Sobre a polêmica em torno o projeto de lei que exige a autorização do retratado em biografias, Ruy revelou: “Nunca pedi autorização de nenhum dos parentes dos meus personagens para escrever sobre eles. Aliás, só fui conversar com eles para pegar mais informações quando o processo do livro estava bem adiantado. Não faz sentido pegar autorização, submeter o rascunho à aprovação e colocar um advogado para dizer o que pode e o que não pode ser revelado. O compromisso de um biógrafo é com a verdade. Até que essa questão da lei não esteja resolvida eu não me atrevo a fazer biografias.”
O próximo Backes-Papo no Midrash Centro Cultural será com o também jornalista e escritor Fausto Fawcett, em 30 de junho.
Júnia Azevedo
 

O NEUROCIENTISTA SIDARTA RIBEIRO FALA NO MIDRASH

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O EFEITO DA CANNABIS NO CÉREBRO E NA SAÚDE

Diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um dos mais respeitados centros de pesquisa biomédica e educação científica no mundo, Sidarta Ribeiro esteve no dia 14 de outubro, no Midrash Centro Cultural, no Rio de Janeiro O renomado neurocientista mostrou resultados de recentes estudos sobre os efeitos da Cannabis sativa (nome científico da maconha) e de outras drogas ilícitas no cérebro humano e experiências de seu uso como remédio no tratamento de diversas doenças, inclusive em pacientes terminais.

Sidarta iniciou a palestra falando sobre a história da Cannabis, lembrando da relação milenar do ser humano com a planta. Segundo ele, a  atual demonização da Cannabis e de outras drogas ilícitas esconde muitas inverdades, geradas sobretudo de uma forte pressão política da indústria farmacêutica, de tabaco e até de armamentos. Sidarta lembrou que a mídia contribui para a desinformação, aumentando o pânico moral. “A Cannabis é uma substância de grande potencial terapêutico, capaz de melhorar muito a qualidade de vida de pessoas que sofrem de depressão, ansiedade, câncer e de pacientes terminais. Entre inúmeros benefícios, a Cannabis pode diminuir o enjoo, a dor e até o tamanho de tumores. Quando a Cannabis for legalizada vai cair muito o uso de álcool, cocaína, cigarro, de Rivotril e outras drogas psiquiátricas”, previu o cientista.

Coordenador do comitê brasileiro do Pew Latin American Fellows Program in the Biomedical Sciences, Sidarta falou também dos efeitos adversos do uso da maconha: “Toda droga tem seu grupo de risco. No caso da Cannabis, ele é formado por jovens e por pessoas depressivas e psicóticas. A droga é nociva para pessoas com menos de 18, 20 anos, quando o cérebro ainda está em desenvolvimento. O THC é pró-psicótico e pode estimular surtos psicóticos, inclusive em quem nem sabe que tem essa propensão. Pessoas com tendência a depressão devem se preocupar com a dose, para não desencadear a doença. Em baixa dosagem, porém, a Cannabis pode ser positiva para os depressivos.” Segundo ele, todos nós somos viciados em alguma droga, seja tabaco, café, açúcar, chocolate… A questão é a dose: “A diferença entre veneno e remédio é a dose, já dizia Paracelso. Setenta por cento das pessoas que estão nos hospitais é porque são viciadas em açúcar.”

Durante a apresentação, para uma plateia formada por psicólogos, psiquiatras, médicos, cientistas do Instituto do Cérebro e público em geral, Sidarta mostrou uma tabela onde cientistas ingleses elencaram as drogas mais nocivas ao ser humano. Nela, o álcool ocupa o primeiro lugar do ranking, seguido pela heroína, crack/cocaína, metafetamina, cocaína, tabaco, anfetamina e pela Cannabis, nessa ordem. Segundo o estudo, o ecstasy, o LSD e o cogumelo ocupam a base da tabela em termos de nocividade. “Estudos mostram que o ecstasy é a melhor substância para tratar pessoas com síndromes de estresse pós-traumático. Muito melhor do que outras drogas comercializadas pelos laboratórios”, revelou.

Para Sidarta, o Governo não deveria interferir no direito de as pessoas consumirem drogas. “O que a população precisa é de informação e de campanhas de orientação. A maneira de proteger os jovens não é proibindo, é informando. A proibição apenas estimula o consumo e faz com que a população consuma drogas sem controle, contaminadas e degradadas, ainda mais nocivas à saúde”, afirmou. Segundo o cientista, que é especialista nas áreas de neuroetologia, neurobiologia molecular e neurofisiologia de sistemas, em termos de saúde e segurança, não faz sentido o consumo de bebida alcoólica ser liberado e o de drogas menos perigosas, como a maconha, ser proibido. Isso só aconteceria devido ao forte lobby das indústrias, principalmente a de bebidas, a de tabaco e a farmacêutica. Sidarta falou do incrível arsenal de remédios psiquiátricos lançados a todo momento no mercado e que, segundo ele, têm eficácia comprovada em pesquisas questionáveis, financiadas pelos próprios laboratórios, levando os médicos um processo de experimentação em cima dos pacientes. “As drogas psiquiátricas têm baixa eficácia. As relações com a indústria farmacêutica e a medicina precisam ser normatizadas. Hoje há uma grande promiscuidade que gira em torno do consumo”, afirmou.

Sobre sua posição frente à descriminalização das drogas, Sidarta foi claro: “Não gosto de usar o tempo liberação, que tem uma conotação ruim. Sou a favor da legalização com regulamentação. Assim como compramos uma bebida com as informações sobre teor de álcool, substâncias etc., sou a favor de podermos comprar drogas hoje consideradas ilegais com essas especificações, para sabermos exatamente o que estamos consumindo. A regulamentação permite ao usuário o controle sobre a procedência, dose, a concentração e saber se ele pertence ao grupo de risco para aquelas substâncias”.

Segundo Sidarta, existe um lobby político forte em Brasília, contra a liberação da Cannabis, onde destaca-se a atuação da ministra-chefe da Casa Civil, Gleicy Hoffman. Em maio deste ano, foi realizado em Brasília o Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade, que debateu os impactos do tráfico sobre diversos setores, as inovações em políticas públicas e os modelos do uso medicinal de maconha em outros países, entre outros pontos relacionados ao tema. No evento, intelectuais e ativistas constataram que a política proibicionista causa danos sociais gravíssimos, e elaboraram um documento – a Carta de Brasília em Defesa da Razão e da Vida – enviado aos três poderes da República, além do quarto poder, a imprensa. Em agosto de 2014, um novo congresso está programado, também em Brasília.

Mídia nas escolas

Palestrantes

Especialistas em educação debatem com jovens a educação no século XXI

O Midrash Centro Cultural abriu as portas para um debate com estudantes, pais e educadores sobre o uso de novas tecnologias na escola. Para o encontro, foram convidados Regina de Assis (Consultora em Educação e Mídia e ex-Secretária Municipal de Educação), Marcus Tavares (jornalista e doutor em Educação) e jovens estudantes de colégios particulares e público. Juntos, eles discutiram os alcances e limites do que vem sendo realizado nas escolas, apontando caminhos e perspectivas para a integração construtiva das mídias à educação e à cultura dos estudantes e professores. O evento, realizado no dia 20 de maio, encerrou o ciclo de palestras feito pelo Midrash em parceria com o Instituto Alana, organização sem fins lucrativos, que trabalha em várias frentes para encontrar caminhos transformadores que honrem as crianças.

Ex-presidente da MultiRio, Regina abriu o encontro com informações da TIC/Kids Online, Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Educação, divulgada pelo NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, www.nic.br), em maio de 2013. A professora contou que 86% das crianças pesquisadas possuem perfil em alguma rede social. Dessas, 69% fornecem seu sobrenome. Outro resultado do estudo é que 37% dos pais creem que não é provável que os filhos tenham problemas na internet. Para entender melhor como os jovens usam as redes sociais e como isso repercute no contexto familiar, Marcus e Regina convidaram os estudantes do Colégio Teresiano, da Escola Eliezer Steinbarg-Max Nordau e do Núcleo Avançado em Educação (Nave) a falar. Os estudantes foram convidados a dar suas opiniões pessoais, sem a preocupação de representar oficialmente as instituições.

Redes sociais

Luíza Aveburg, a mais nova do grupo, de 11 anos, que está na 6ª série do Ensino Fundamental, disse que hoje tem noção do que representa ter um perfil no Facebook, mas entende que nem sempre foi assim: “As crianças mais novas não têm ideia do risco que correm. Eu mesma já recebi pedidos de amizade de pessoas estranhas. Lembro de uma que entrou, disse que eu era muito bonita e começou a fazer um monte de perguntas, como, por exemplo, onde eu morava”. Daniel Ferreira, de 14 anos, presidente do grêmio estudantil de seu colégio, lembrou que é comum uma pessoa criar um perfil falso e se passar por outra. “É muito fácil um adulto mal intencionado se passar por uma criança”, alertou. Os três contaram que hoje eles se comunicam pelas redes sociais, como Facebook, Instagram e outras. É no Facebook que eles marcam seus encontros, se falam ou trocam dúvidas sobre lições escolares. Passar email ou telefonar é coisa do passado. Segundo eles, se um pai quiser saber da vida do filho, é só entrar ali.

Mídias na educação

Entrando na parte de educação, Regina citou o filósofo Michel Serres, em seu novo livro “Polegarzinha”, ao afirmar que a geração de adultos hoje é neta da escrita e filha do livro. E acrescentou: “Já esses adolescentes e jovens de hoje são bisnetos da escrita, netos do livro e filhos da internet”. O grupo discutiu, então, se as mesmas estratégias pedagógicas utilizadas antigamente para educar continuam válidas. Regina e Marcus citaram experiências recentes, como as das “Flipped Classrooms”, que englobam o uso da tecnologia para alavancar o aprendizado em sala de aula. Esse tipo de prática inclui aulas por vídeo e troca de informações pela internet. Nesse modelo, primeiro os estudantes levam os temas a serem estudados para casa, antes de discuti-los em sala de aula. Eles pesquisam nos livros e na internet, interagem com os colegas e, só depois, levam os resultados para a sala de aula, quando, então, interagirão com os professores. O grupo concluiu que essa era uma boa proposta, mas que precisa ser bem estudada, pois possui prós e contras.

Marcus e Regina citaram a ONG educacional The Khan Academy, que oferece uma coleção grátis de mais de 3.800 vídeos na internet, com lições de matemática, história, medicina e saúde, finanças, física, química, biologia, astronomia, economia, ciência da computação, entre outras matérias.A Khan Academy já deu mais de 200 milhões de videoaulas gratuitas. Regina alertou que a introdução das mídias integradas aos currículos e aos projetos político-pedagógicos das escolas precisa ser realmente bem feita. “O que importa é conhecer e saber como as linguagens das mídias audiovisuais, digitais e impressas impactam sobre os processos de construção de conhecimentos e valores dos estudantes”, disse ela.

Surgiram alguns exemplos de práticas interessantes, como os benefícios da troca de informações entre pessoas de estados diferentes. Segundo os dois especialistas, como os alunos do país estão submetidos aos mesmos conteúdos, entender como cada um aprende em sua região, com certeza seria muito benéfico para o processo de construção de conhecimento e de valores. Outro caso elogiado no debate foi o de um professor que tem um perfil no Facebook, onde compartilha o Power Point da aula e tira dúvidas online.

Transtorno de atenção

Outra questão discutida foi a interdisciplinaridade. Será que os jovens entendem por que devem estudar determinada matéria? Será que as distintas matérias “conversam” umas com as outras para ampliar e aprofundar os conhecimentos? Os alunos veem o uso prático dessas disciplinas na vida? “Acho importante estudar todas as matérias. No Ensino Fundamental não temos maturidade ainda para decidir a profissão que teremos quando adultos. É fundamental esse conhecimento amplo, para podermos ter no futuro a capacidade de escolher”, afirmou Jonathan Caroba, de 17 anos.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) foi outra questão tratada no encontro. “Tem gente que usa isso como desculpa para não se esforçar. Eles falam: meu psicólogo disse que eu tenho transtorno de atenção, nem adianta estudar”, contou Daniel Ferreira. Os outros estudantes concordaram. Todos tinham casos semelhantes para contar.

A importância do espaço físico da escola também foi discutida. Sabe-se que é possível aprender em casa, com a família, com a televisão, com os celulares e a internet. Então, ainda é necessário ir à escola para aprender? Por que vamos ao colégio? Luíza lembrou-se de situações dentro de sua escola judaica onde convive com colegas católicos: “Acho legal essa troca. Com eles eu aprendo coisas que talvez nunca soubesse”, explicou Luíza, revelando a necessidade do espaço da escola para socializar e aprender a dividir. Regina acrescentou que a escola é o lugar ideal para a sistematização de conhecimentos e a convivência construtiva com uma variedade de pessoas e situações socioculturais.

O diálogo funciona mais do que a proibição

Em relação ao uso da internet em casa, o grupo reiterou a importância do diálogo com os pais. “Criança é curiosa. Se o pai proíbe alguma coisa, aí é que a gente vai querer saber. Por que ele proibiu? É melhor dizer o porquê: ‘Filha, é perigoso entrar aí porque entra vírus na máquina’”, explicou Luíza. Em vez de proibir, os educadores devem explicar porque um site é inadequado e não confiável. Mas o diálogo tem que ser uma via de mão dupla, pois, frente a tantas novidades, os adultos também precisam estar abertos para conhecer melhor as novas mídias, de forma a serem capazes de avaliá-las criticamente. Outra questão levantada é a de que os pais precisam estar mais próximos das escolas, para não passarem exemplos equivocados. Segundo os jovens, no meio da aula é comum alunos receberem ligações e mensagens dos pais pelos seus telefones celulares: “Professor, vou ter que atender, é minha mãe!”.

Regina ressaltou a importância também de a universidade se dar conta dessas questões: “A universidade ainda ensina para os séculos XVIII e XIX. É urgente rever esses processos, pois já estamos no Século XXI, que oferece ricas oportunidades de acesso e democratização de conhecimentos”, concluiu. O debate do dia 27, no Midrash, encerrou o ciclo de palestras com especialistas das áreas de comunicação, educação, nutrição e psicologia. Nos outros eventos, realizados nos dias 6 e 20 de maio, estiveram presentes também o jornalista André Trigueiro, a publicitária Nádia Rebouças, a nutricionista Luciana Ayer e a psicóloga Laís Fontenelle. Os temas foram Obesidade Infantil e Consumismo na infância.

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Nádia Rebouças, Laís Fontenelle, Ilana Salama e André Trigueiro, no Midrash Centro Cultural

Jorge Mautner, um profeta contemporâneo

Jorge Mautner, um profeta contemporâneo

- O profeta Jorge Mautner

Na última aula do curso “O Mundo Segundo Jorge Mautner”, dia 6 de maio, no Midrash Centro Cultural, o festejado professor leu uma parte do material que será usado na Copa do Mundo e nas Olimpíadas a serem realizadas no Brasil. O Prefeito e o Governador do Rio o convidaram para divulgar durante os dois grandes eventos as suas proféticas ideias da “amálgama do povo brasileiro”. Segundo Mautner, o brasileiro é o único povo no mundo que tem essa incrível capacidade de acolher o diferente, de se misturar com ele, de incorporar seus atributos, de reinterpretar tudo a cada segundo e, incluindo posições contrárias e opostas, chegar a uma outra coisa, a um caminho do meio, ao equilíbrio.

Mautner explica que isso veio dos tupi-guarani, que tinham uma incrível curiosidade pelo mistério. Em vez de confrontar e expulsar o estrangeiro, eles o recebiam e queriam desvendar o que era diferente. Exemplo que ele conta é o do canibalismo do índio brasileiro, que só comia o inimigo como uma forma de incorporar sua valentia, não para saciar a fome ou subjugá-lo.

O professor, compositor, filósofo, poeta e músico fala que o calor humano e a forma de ser do brasileiro são exemplos para o mundo inteiro. Toda aula ele repete seus proféticos bordões: “O Brasil é o gigante que se fingiu de invisível até hoje. Não é à toa que as Olimpíadas e a Copa do Mundo vão ser aqui. A palavra de ordem no mundo é ser como o Brasil. Ou o mundo se ‘brasilifica’ ou se ‘nazifica’.”

Citando o filósofo indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), Mautner diz sempre: “Uma civilização superior do amor nascerá no Brasil”. José Bonifácio e Padre Antônio Vieira (segundo o professor, criadores do conceito Amálgama Brasileira), Stephan Zweig (“Brasil, o País do Futuro”), Walt Whitman (“O vértice da humanidade será o Brasil”), são outros dos pensadores que corroboram suas profecias. Oxalá, velho Mautner!