– A consciência pelo olhar da psicanálise

A consciência pelo olhar da psicanálise, por Joel Birman

A CONSCIÊNCIA PELO OLHAR DA PSICANÁLISE, POR JOEL BIRMAN

Ontem, dia 22 de maio, o Midrash Centro Cultural lotou com a palestra de Joel Birman, professor e pesquisador do Programa de Mestrado e Doutorado em Teoria Psicanalítica da UFRJ. À luz da psicanálise, Birman procurou responder a pergunta do ciclo de palestras “Onde está a Consciência?”, promovido pelo Midrash. O programa procura investigar a consciência humana por quatro prismas: da neurociência, da filosofia, da psicanálise e da espiritualidade. Birman trouxe o olhar da consciência a partir da obra de grandes mestres da psicanálise e da filosofia.

“Nós pensamos onde não existimos e existimos onde não pensamos”, disse Birman, citando Lacan. Para o palestrante, que também é doutor em filosofia pela Universidade de Paris, o elemento fundamental para caracterizar o existir é o desejo: “O inconsciente é o desejo”. Sobre a percepção de si mesmo, o professor do Instituto de Medicina Social da UERJ explicou: “O eu é ilusório. O eu distorce a realidade. O eu funciona de forma a apagar tudo aquilo que distorce a nossa autoimagem”.

Pesquisador do Laboratório de Psicanálise e Medicina da Universidade de Paris, Birman explicou como funcionam alguns processos psíquicos fundamentais para a formação da consciência: “Tudo o que nos incomoda nós passamos para o inconsciente, em forma de recalque. O recalque e o desejo estão em confronto permanente. Esse confronto vai marcar a nossa existência”.

Ao falar de terapia, citando Freud, Birman explicou que, num processo psicanalítico, o sujeito fala através dos sintomas, dos sonhos, dos lapsos, dos atos falhos e dos chistes. “Quanto maior a capacidade de rir de si próprio, mais rápido o paciente poderá encerrar seu processo psicanalítico”, contou. O próximo e último encontro do ciclo será a consciência pelo olhar da espiritualidade, no dia 29 de abril, com a Psicóloga Integral Denise Wilson.

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“A gente fica lutando por coisas quando deveria lutar por causas”

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Dra. Rosa Celia, criadora do Pro Criança Cardíaca, esteve nesta terça, dia 9, no Midrash Centro Cultural. Entrevistada pela jornalista Stefânia Fernandes, a cardiologista pediátrica contou sua história pessoal, que se mistura com a da instituição voltada a crianças carentes, criada em 1996. O tema da noite era Superação.

Com muita simplicidade, Rosa Célia Pimentel Barbosa iniciou o bate-papo com uma bela reflexão: “Todos nós deveríamos parar um pouco para pensar no que estamos fazendo da vida. A gente fica lutando por coisas quando deveria lutar por causas”.

Rosa contou como superou sua origem humilde, em Palmeira dos Índios (Alagoas), cursou Medicina no Rio de Janeiro e ganhou uma bolsa para estudar na Inglaterra, sem falar inglês. Ao voltar ao Brasil, com a especialização em cirurgia pediátrica, criou o departamento pediátrico do Hospital Pro Cardíaco, instalando ali, bem perto, seu consultório particular.

Movida pela vontade de ajudar as diversas famílias carentes que chegavam até seu consultório com a criança doente sem conseguir atendimento especializado na rede pública hospitalar, ela fundou o Pro Criança Cardíaca. “Eu sou assim. Não sei ficar alheia ao problema do outro”, explicou.

O Pró Criança Cardíaca é uma instituição sem fins lucrativos, que atua com foco na cirurgia cardíaca e em procedimentos invasivos que necessitam de alta tecnologia hospitalar. Os custos das internações e das cirurgias são pagos graças a doações realizadas pelos amigos, doadores, parceiros e patrocinadores da Instituição. A renda do evento no Midrash foi toda revertida para o Pro Criança Cardíaca.

– Elisa Lispector

As irmãs Tânia, Clarice e Elisa
As irmãs Tânia, Clarice e Elisa

Nádia Gotlib comanda viagem ao universo da família Lispector

  • Biógrafa de Clarice lança no Midrash livro de Elisa Lispector
  • Na plateia, descendentes das escritoras participam com relatos testemunhais

Ontem, dia 23 de agosto, o Midrash Centro Cultural recebeu Nádia Battela Gotlib, livre-docente, autora de duas biografias de Clarice Lispector. Professora de literatura e coordenadora do programa de pós-graduação em Letras da USP, com 10 livros publicados, Nádia falou sobre seu mais recente lançamento: “Retratos Antigos”, livro de Elisa Lispector, organizado por ela. Na plateia, parentes de Clarice e Elisa aproveitaram para dar seus testemunhos sobre a história dos Lispector (o pai, Pinkhas, a mãe, Mania, e as três irmãs, Elisa, Tânia e Clarice).

Estavam presentes vários descendentes do lado materno: a sobrinha Márcia Algranti (filha de Tânia e atual herdeira) e seu marido Sigfrido Borenstein, e os primos Bóris Asrilhant e Pedro e Cecília Wainstock (estes dois últimos, irmãos). O evento reuniu também admiradores e profundos conhecedores da obra e vida de Clarice Lispector, como o diplomata e escritor Geraldo Holanda Cavalcanti, membro da Academia Brasileira de Letras; a tradutora Isa Maria Lando; além de professores e pesquisadores de literatura.

Entre revelações e histórias, uma chamou mais a atenção do público: a falta de provas sobre o suposto estupro da mãe de Clarice por um soldado russo num dos inúmeros pogroms pós-revolução bolchevique, através do qual ela haveria contraído sífilis. Nádia, apoiada por especialistas, afirmou não haver provas sobre o fato, tampouco sobre a doença da mãe, o que contradiz a biografia de Benjamin Moser, jovem escritor norte-americano.

Outra revelação foi a qualidade e relevância da obra de Elisa Lispector, que possui 11 livros publicados e, com generosidade e grandeza, sempre se manteve à sombra do furacão Clarice. Nádia explicou que pesquisar a obra de Elisa é fundamental para entender a vida dos Lispector: “Como irmã mais velha, ela foi a única que viveu a transição da família da Ucrânia para o Brasil. A única pista sobre a história da família vem do romance quase autobiográfico escrito por Elisa (No Exílio). Com um olhar de socióloga e antropóloga, Elisa era especialmente sensível às questões dos hábitos e costumes. Graças a ela, temos acesso a essa fatia da vida dos Lispector”.

– Manhã de Carnaval

Em 1956, é montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. Além de ser a primeira vez que um negro pisava o palco do Teatro Municipal, a peça levou a uma sucessão de acontecimentos que mudaram a história da música brasileira. Entre eles, o início da parceria entre Tom Jobim e Vinicius, pois, foi buscando um compositor para musicar sua obra, que o poeta foi apresentado ao jovem maestro.

Em 1958, o texto de Vinicius virou filme, numa produção franco-ítalo-brasileira, com o nome Orfeu do Carnaval. O produtor da película, Sacha Gordine, exigiu que a partitura original da peça incluísse canções inéditas. Foi aí que Luiz Bonfá e Antônio Maria compuseram o sensacional samba Manhã de Carnaval.

Dizem que Manhã de Carnaval chegou a ser recusada inicialmente, obrigando Bonfá a criar uma nova versão. Mas o compositor insistiu e conseguiu mantê-la na trilha. Alguns meses depois, Manhã de Carnaval já era a segunda música mais gravada no mundo.

Manhã de Carnaval se tornou um dos temas brasileiros preferidos na área do jazz, com dezenas de versões gravadas por grandes músicos do gênero. A canção ajudou a estabelecer o movimento da Bossa Nova no final da década de 50. Existem também outras versões da música com letra adaptada para o inglês, mas a versão mais popular, até mesmo no exterior, ainda é a de nome e letra em português.

Aqui, Manhã de Carnaval, na voz de Nara Leão. E, por sinal, foi junto com o seu pai, o arquiteto Carlos Leão, que Vinicius começou a escrever a peça: http://www.youtube.com/watch?v=hYRD9r6rnN0

– Lundu

A maliciosa herança do Lundu

Segundo Ricardo Cravo Albin, em seu O Livro de Ouro da MPB, é no século XVII que se pode começar a falar numa música popular brasileira. Até então, as expressões musicais na Colônia marcavam-se pelas danças rituais dos índios, pelos batuques de escravos (a maioria dos quais também rituais), pelas cantigas dos europeus colonizadores (originadas nos burgos medievais dos séculos XII a XVI), pelo hinário religioso católicos dos padres e pelos toques de fanfarras militares dos exércitos portugueses aqui aquartelados. Todas formas musicais bem definidas e isoladas.

Mas, com o surgimento das cidades, as expressões musicais começaram a se miscigenar. Escapando das igrejas, das casernas e da ordem unida, a música vai ganhando as rodas públicas e assumindo novas feições.

Um dos mais remotos registros do canto popular brasileiro é do poeta Gregório de Matos Guerra (1633 – 1696), o Boca do Inferno, que tinha forte ligação com a música. Veja os curiosos versos com que ele, mesmo já velhote, tentava seduzir as escravas, cantando ao som de uma viola de arame:

Peça amores e fineza,
Peça beijos, peça abraços;

Pois que os abraços são laços,
que prendem grandes firmezas;

Não há maiores despesas,
Que um requebro, e que um carinho;

Pois no tomar de um beijinho,
Fica a riqueza ganhada.

Se tudo o mais não vale nada,
Não peças mais, meu anjinho.

“A licensiosidade que perdurou mais tarde nos versos de nossa poesia é herança desse ‘Petrarca sertanejo’ que aperfeiçoou o lundu, tão em voga na Colônia”, esclarece Segundo Segismundo Spina, na antologia do poeta. O lundu é uma dança e canto de origem africana, que, por ser considerado indecente e lascivo, chegou a ser proibido por D. Manuel (1469 – 1521). O ponto alto da coreografia distinguia-se por uma umbigada entre o homem e a mulher. Aos poucos, porém, o lundu também foi “refinando-se” e adentrando os salões da sociedade colonial.

“O lundu-dança continuou a ser praticado por negros e mestiços enquanto o lundu-canção passou a interessar aos compositores de escola e músicos de teatro, onde era feito para ser dançado e cantado com letras engraçadas e maliciosas. Já em fins do século XIX, esse aspecto foi intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa, que, acompanhando-se ao violão, depois de determinada hora improvisava com facilidade lundus especiais ouvidos só por homens.”1

O diabo desta chave
Que sempre me anda torta
Por mais jeitos que lhe dê
Nunca posso abrir a porta

Tome lá esta chave,
Endireite, sinhá…
Você é quem sabe
O jeito que lhe dá…

Seguido de outro lundu:

Eu possuo uma bengala
Da maior estimação,
É feita da melhor cana
E tem o melhor castão.

 A minha bela caseira
Toda inteira se arrepia
Quando três vezes por dia
Não dou bengaladas nela.

E concluía: Lhe fincando a bengalada!

No século XX, com o aparecimento de outros gêneros afro-brasileiros mais expressivos, o lundu saiu de moda. No entanto, sua vertente lasciva e maliciosa foi incorporada definitivamente na nossa cultura popular musical. Uma modalidade do lundu, a dança de roda, ainda é praticada na Ilha de Marajó. No You Tube há vários vídeos com a dança, mas a maioria de qualidade muito ruim. No entanto, como curiosidade, vale a espiada. A coreografia é realmente quente.

1Albin, Ricardo Cravo – O livro de Ouro da MPB – Ediouro, pág. 28.

Machado de Assis

Ler Machado é ler o Rio*. É a forma mais prazerosa de reconstituir a vida do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, cidade que era ao mesmo tempo porto, capital de província e referência para o resto do país.

Machado é o cicerone perfeito para quem deseja fazer uma viagem no tempo e conhecer a vida agitada e elegante da capital de província, que trajava cartola e fraque, saias de balão, que espremia a cintura das moças em coletes de barbatana, que se deslocava em bondes, barcos e tílburis.

Subindo e descendo ladeiras, cruzando ruas, praias, parques, jardins, para os lados do Andaraí ou da Gávea, a pé ou de bonde – o veículo machadiano por excelência – seus personagens descortinam uma cidade pitoresca, romântica, ao mesmo tempo bucólica e agitada, janota e elegante.

Vamos seguir os passos do próprio escritor, daquele menino simples da Gamboa, filho de um mulato forro e de uma lavadeira, que conquistou lugar de honra no centro da capital cultural do país, travou um embate duro com a loucura e terminou sua própria história triste e solitário, com a estranha alcunha de bruxo do Cosme Velho.

Machado viveu tempos marcantes: o fim do romantismo e o começo do realismo, o fim da Monarquia e a instalação da República, o fim da escravidão, a Guerra do Paraguai e a modernização da cidade – a “belle époque”. Era a fase das metamorfoses sociais, da revolução na indústria, dos empreendimentos financeiros arrojados.

A cidade transformava-se, engalanava-se, era a verdadeira imagem do progresso em marcha acelerada. A Rua do Ouvidor tornara-se o palco da moda, frequentada por belas mulheres, políticos e homens da situação, era centro de todos os caprichos, falatórios e elegâncias da cidade.

Mas nem tudo era progresso e garbo. Doenças epidêmicas com frequência assombravam a cidade, muito embora não chegassem a ocultar o seu encanto. “Os efeitos do cólera-morbo não iam a ponto de empanar o brilho estranho da cidade, nem esse, nem outros males epidêmicos que cercavam de perigos a existência por um fio de seus moradores” (9). A febre amarela, a varíola, o tifo e outras moléstias são citadas pelo próprio Machado em suas obras. Flagelos tão comuns que não pouparam nem o próprio Machado nem sua família. “Remédios… eram pouco conhecidos apesar dos elixires que se anunciavam, em proveito, quase que exclusivamente, da bolsa dos inventores (11).”

Porém, “’apesar dos recentes estragos do cólera’, a Corte se divertia, como em todos os tempos: ‘bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao teatro… O Cassino abria os seus salões, como os abria o Clube, como os abria o Congresso, todos três fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homéricos do teatro lírico, vida alegre e tentadora do coração do império.

Outro problema era a falta d’água, lastimada pela população que cobrava providências do governo, como a construção da caixa do Catumbi, ‘que custou ao povo centenares de contos’(15). Só quem ouvia os rogos da cidade era o ‘prefeito das Nuvens’, que para cá despejava ‘grande quantidade de chuva’” (16), alagando as casas e inundando as ruas. Já “para beber, era água do Vintém a preferida – água levada até as casas em barris carregados em carroças (17), e de que Machado se servia, ‘não por medo do chumbo’ (dos encanamentos), mas porque a consideravam ‘muito pura e leve’(18).

A sujeira também atormentava os moradores, principalmente após as chuvas: “As ruas do Rio de Janeiro, imundas porque os fiscais não se importam com isso” – “Não há quem mande ajuntar a lama quando chove” – “Que cidade do Rio de Janeiro imunda!” – “Que carroças de asseio público!” – “Que de barras de vestidos na lama!”- “O beco das Cancelas continua imundo”- “Quem tem culpa de estarem  as ruas imundas? A Câmara Municipal.” – “Quem há de obstar a que se forme um charco de águas servidas por trás do botequim do Passeio Público?” – “A Câmara Municipal confia na indolência do povo para não trazer a cidade limpa e asseada.” – “A lama das ruas do Rio de Janeiro dura até secar pelos raios de sol.” – “Os fluminenses estão num depósito de pestes.” – “Os burros e os gatos morrem pelas ruas, e aí ficam dias inteiros.” – “Daqui a cem anos, teremos esgotos no Rio e Janeiro.”(19)… “Os dejetos da Corte recolhiam-se em barris (tigres), transportados geralmente por escravos (também chamados “tigres”), para despejo em qualquer parte (20),  principalmente na ponte da Praia de Santa Luzia (21). “Criticando esse sistema, comentará o cronista: ‘Que chapéus monstruosos nas cabeças dos pretos do ganho nas horas de mais concorrência!’ – ‘Os tigres saem de todas as portas e a todas as horas’” (22).

Ao ler Machado reconhecemos alguns problemas crônicos da cidade, como as enchentes, o comércio ambulante e a resistência da população ao cumprimento de leis.

Pronto. Montado o cenário, é hora de confiar ao próprio Machado de Assis os nossos caminhos. Deixemos que ele agora nos guie por entre as ruelas, ladeiras, avenidas e becos da sua vida, percorrendo as entranhas de uma cidade fascinante, que poucos souberam tão bem homenagear.

(Trecho de livro)