– Lundu

A maliciosa herança do Lundu

Segundo Ricardo Cravo Albin, em seu O Livro de Ouro da MPB, é no século XVII que se pode começar a falar numa música popular brasileira. Até então, as expressões musicais na Colônia marcavam-se pelas danças rituais dos índios, pelos batuques de escravos (a maioria dos quais também rituais), pelas cantigas dos europeus colonizadores (originadas nos burgos medievais dos séculos XII a XVI), pelo hinário religioso católicos dos padres e pelos toques de fanfarras militares dos exércitos portugueses aqui aquartelados. Todas formas musicais bem definidas e isoladas.

Mas, com o surgimento das cidades, as expressões musicais começaram a se miscigenar. Escapando das igrejas, das casernas e da ordem unida, a música vai ganhando as rodas públicas e assumindo novas feições.

Um dos mais remotos registros do canto popular brasileiro é do poeta Gregório de Matos Guerra (1633 – 1696), o Boca do Inferno, que tinha forte ligação com a música. Veja os curiosos versos com que ele, mesmo já velhote, tentava seduzir as escravas, cantando ao som de uma viola de arame:

Peça amores e fineza,
Peça beijos, peça abraços;

Pois que os abraços são laços,
que prendem grandes firmezas;

Não há maiores despesas,
Que um requebro, e que um carinho;

Pois no tomar de um beijinho,
Fica a riqueza ganhada.

Se tudo o mais não vale nada,
Não peças mais, meu anjinho.

“A licensiosidade que perdurou mais tarde nos versos de nossa poesia é herança desse ‘Petrarca sertanejo’ que aperfeiçoou o lundu, tão em voga na Colônia”, esclarece Segundo Segismundo Spina, na antologia do poeta. O lundu é uma dança e canto de origem africana, que, por ser considerado indecente e lascivo, chegou a ser proibido por D. Manuel (1469 – 1521). O ponto alto da coreografia distinguia-se por uma umbigada entre o homem e a mulher. Aos poucos, porém, o lundu também foi “refinando-se” e adentrando os salões da sociedade colonial.

“O lundu-dança continuou a ser praticado por negros e mestiços enquanto o lundu-canção passou a interessar aos compositores de escola e músicos de teatro, onde era feito para ser dançado e cantado com letras engraçadas e maliciosas. Já em fins do século XIX, esse aspecto foi intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa, que, acompanhando-se ao violão, depois de determinada hora improvisava com facilidade lundus especiais ouvidos só por homens.”1

O diabo desta chave
Que sempre me anda torta
Por mais jeitos que lhe dê
Nunca posso abrir a porta

Tome lá esta chave,
Endireite, sinhá…
Você é quem sabe
O jeito que lhe dá…

Seguido de outro lundu:

Eu possuo uma bengala
Da maior estimação,
É feita da melhor cana
E tem o melhor castão.

 A minha bela caseira
Toda inteira se arrepia
Quando três vezes por dia
Não dou bengaladas nela.

E concluía: Lhe fincando a bengalada!

No século XX, com o aparecimento de outros gêneros afro-brasileiros mais expressivos, o lundu saiu de moda. No entanto, sua vertente lasciva e maliciosa foi incorporada definitivamente na nossa cultura popular musical. Uma modalidade do lundu, a dança de roda, ainda é praticada na Ilha de Marajó. No You Tube há vários vídeos com a dança, mas a maioria de qualidade muito ruim. No entanto, como curiosidade, vale a espiada. A coreografia é realmente quente.

1Albin, Ricardo Cravo – O livro de Ouro da MPB – Ediouro, pág. 28.

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