Mídia nas escolas

Palestrantes

Especialistas em educação debatem com jovens a educação no século XXI

O Midrash Centro Cultural abriu as portas para um debate com estudantes, pais e educadores sobre o uso de novas tecnologias na escola. Para o encontro, foram convidados Regina de Assis (Consultora em Educação e Mídia e ex-Secretária Municipal de Educação), Marcus Tavares (jornalista e doutor em Educação) e jovens estudantes de colégios particulares e público. Juntos, eles discutiram os alcances e limites do que vem sendo realizado nas escolas, apontando caminhos e perspectivas para a integração construtiva das mídias à educação e à cultura dos estudantes e professores. O evento, realizado no dia 20 de maio, encerrou o ciclo de palestras feito pelo Midrash em parceria com o Instituto Alana, organização sem fins lucrativos, que trabalha em várias frentes para encontrar caminhos transformadores que honrem as crianças.

Ex-presidente da MultiRio, Regina abriu o encontro com informações da TIC/Kids Online, Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Educação, divulgada pelo NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, www.nic.br), em maio de 2013. A professora contou que 86% das crianças pesquisadas possuem perfil em alguma rede social. Dessas, 69% fornecem seu sobrenome. Outro resultado do estudo é que 37% dos pais creem que não é provável que os filhos tenham problemas na internet. Para entender melhor como os jovens usam as redes sociais e como isso repercute no contexto familiar, Marcus e Regina convidaram os estudantes do Colégio Teresiano, da Escola Eliezer Steinbarg-Max Nordau e do Núcleo Avançado em Educação (Nave) a falar. Os estudantes foram convidados a dar suas opiniões pessoais, sem a preocupação de representar oficialmente as instituições.

Redes sociais

Luíza Aveburg, a mais nova do grupo, de 11 anos, que está na 6ª série do Ensino Fundamental, disse que hoje tem noção do que representa ter um perfil no Facebook, mas entende que nem sempre foi assim: “As crianças mais novas não têm ideia do risco que correm. Eu mesma já recebi pedidos de amizade de pessoas estranhas. Lembro de uma que entrou, disse que eu era muito bonita e começou a fazer um monte de perguntas, como, por exemplo, onde eu morava”. Daniel Ferreira, de 14 anos, presidente do grêmio estudantil de seu colégio, lembrou que é comum uma pessoa criar um perfil falso e se passar por outra. “É muito fácil um adulto mal intencionado se passar por uma criança”, alertou. Os três contaram que hoje eles se comunicam pelas redes sociais, como Facebook, Instagram e outras. É no Facebook que eles marcam seus encontros, se falam ou trocam dúvidas sobre lições escolares. Passar email ou telefonar é coisa do passado. Segundo eles, se um pai quiser saber da vida do filho, é só entrar ali.

Mídias na educação

Entrando na parte de educação, Regina citou o filósofo Michel Serres, em seu novo livro “Polegarzinha”, ao afirmar que a geração de adultos hoje é neta da escrita e filha do livro. E acrescentou: “Já esses adolescentes e jovens de hoje são bisnetos da escrita, netos do livro e filhos da internet”. O grupo discutiu, então, se as mesmas estratégias pedagógicas utilizadas antigamente para educar continuam válidas. Regina e Marcus citaram experiências recentes, como as das “Flipped Classrooms”, que englobam o uso da tecnologia para alavancar o aprendizado em sala de aula. Esse tipo de prática inclui aulas por vídeo e troca de informações pela internet. Nesse modelo, primeiro os estudantes levam os temas a serem estudados para casa, antes de discuti-los em sala de aula. Eles pesquisam nos livros e na internet, interagem com os colegas e, só depois, levam os resultados para a sala de aula, quando, então, interagirão com os professores. O grupo concluiu que essa era uma boa proposta, mas que precisa ser bem estudada, pois possui prós e contras.

Marcus e Regina citaram a ONG educacional The Khan Academy, que oferece uma coleção grátis de mais de 3.800 vídeos na internet, com lições de matemática, história, medicina e saúde, finanças, física, química, biologia, astronomia, economia, ciência da computação, entre outras matérias.A Khan Academy já deu mais de 200 milhões de videoaulas gratuitas. Regina alertou que a introdução das mídias integradas aos currículos e aos projetos político-pedagógicos das escolas precisa ser realmente bem feita. “O que importa é conhecer e saber como as linguagens das mídias audiovisuais, digitais e impressas impactam sobre os processos de construção de conhecimentos e valores dos estudantes”, disse ela.

Surgiram alguns exemplos de práticas interessantes, como os benefícios da troca de informações entre pessoas de estados diferentes. Segundo os dois especialistas, como os alunos do país estão submetidos aos mesmos conteúdos, entender como cada um aprende em sua região, com certeza seria muito benéfico para o processo de construção de conhecimento e de valores. Outro caso elogiado no debate foi o de um professor que tem um perfil no Facebook, onde compartilha o Power Point da aula e tira dúvidas online.

Transtorno de atenção

Outra questão discutida foi a interdisciplinaridade. Será que os jovens entendem por que devem estudar determinada matéria? Será que as distintas matérias “conversam” umas com as outras para ampliar e aprofundar os conhecimentos? Os alunos veem o uso prático dessas disciplinas na vida? “Acho importante estudar todas as matérias. No Ensino Fundamental não temos maturidade ainda para decidir a profissão que teremos quando adultos. É fundamental esse conhecimento amplo, para podermos ter no futuro a capacidade de escolher”, afirmou Jonathan Caroba, de 17 anos.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) foi outra questão tratada no encontro. “Tem gente que usa isso como desculpa para não se esforçar. Eles falam: meu psicólogo disse que eu tenho transtorno de atenção, nem adianta estudar”, contou Daniel Ferreira. Os outros estudantes concordaram. Todos tinham casos semelhantes para contar.

A importância do espaço físico da escola também foi discutida. Sabe-se que é possível aprender em casa, com a família, com a televisão, com os celulares e a internet. Então, ainda é necessário ir à escola para aprender? Por que vamos ao colégio? Luíza lembrou-se de situações dentro de sua escola judaica onde convive com colegas católicos: “Acho legal essa troca. Com eles eu aprendo coisas que talvez nunca soubesse”, explicou Luíza, revelando a necessidade do espaço da escola para socializar e aprender a dividir. Regina acrescentou que a escola é o lugar ideal para a sistematização de conhecimentos e a convivência construtiva com uma variedade de pessoas e situações socioculturais.

O diálogo funciona mais do que a proibição

Em relação ao uso da internet em casa, o grupo reiterou a importância do diálogo com os pais. “Criança é curiosa. Se o pai proíbe alguma coisa, aí é que a gente vai querer saber. Por que ele proibiu? É melhor dizer o porquê: ‘Filha, é perigoso entrar aí porque entra vírus na máquina’”, explicou Luíza. Em vez de proibir, os educadores devem explicar porque um site é inadequado e não confiável. Mas o diálogo tem que ser uma via de mão dupla, pois, frente a tantas novidades, os adultos também precisam estar abertos para conhecer melhor as novas mídias, de forma a serem capazes de avaliá-las criticamente. Outra questão levantada é a de que os pais precisam estar mais próximos das escolas, para não passarem exemplos equivocados. Segundo os jovens, no meio da aula é comum alunos receberem ligações e mensagens dos pais pelos seus telefones celulares: “Professor, vou ter que atender, é minha mãe!”.

Regina ressaltou a importância também de a universidade se dar conta dessas questões: “A universidade ainda ensina para os séculos XVIII e XIX. É urgente rever esses processos, pois já estamos no Século XXI, que oferece ricas oportunidades de acesso e democratização de conhecimentos”, concluiu. O debate do dia 27, no Midrash, encerrou o ciclo de palestras com especialistas das áreas de comunicação, educação, nutrição e psicologia. Nos outros eventos, realizados nos dias 6 e 20 de maio, estiveram presentes também o jornalista André Trigueiro, a publicitária Nádia Rebouças, a nutricionista Luciana Ayer e a psicóloga Laís Fontenelle. Os temas foram Obesidade Infantil e Consumismo na infância.

Imagem

Nádia Rebouças, Laís Fontenelle, Ilana Salama e André Trigueiro, no Midrash Centro Cultural

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