O NEUROCIENTISTA SIDARTA RIBEIRO FALA NO MIDRASH

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O EFEITO DA CANNABIS NO CÉREBRO E NA SAÚDE

Diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um dos mais respeitados centros de pesquisa biomédica e educação científica no mundo, Sidarta Ribeiro esteve no dia 14 de outubro, no Midrash Centro Cultural, no Rio de Janeiro O renomado neurocientista mostrou resultados de recentes estudos sobre os efeitos da Cannabis sativa (nome científico da maconha) e de outras drogas ilícitas no cérebro humano e experiências de seu uso como remédio no tratamento de diversas doenças, inclusive em pacientes terminais.

Sidarta iniciou a palestra falando sobre a história da Cannabis, lembrando da relação milenar do ser humano com a planta. Segundo ele, a  atual demonização da Cannabis e de outras drogas ilícitas esconde muitas inverdades, geradas sobretudo de uma forte pressão política da indústria farmacêutica, de tabaco e até de armamentos. Sidarta lembrou que a mídia contribui para a desinformação, aumentando o pânico moral. “A Cannabis é uma substância de grande potencial terapêutico, capaz de melhorar muito a qualidade de vida de pessoas que sofrem de depressão, ansiedade, câncer e de pacientes terminais. Entre inúmeros benefícios, a Cannabis pode diminuir o enjoo, a dor e até o tamanho de tumores. Quando a Cannabis for legalizada vai cair muito o uso de álcool, cocaína, cigarro, de Rivotril e outras drogas psiquiátricas”, previu o cientista.

Coordenador do comitê brasileiro do Pew Latin American Fellows Program in the Biomedical Sciences, Sidarta falou também dos efeitos adversos do uso da maconha: “Toda droga tem seu grupo de risco. No caso da Cannabis, ele é formado por jovens e por pessoas depressivas e psicóticas. A droga é nociva para pessoas com menos de 18, 20 anos, quando o cérebro ainda está em desenvolvimento. O THC é pró-psicótico e pode estimular surtos psicóticos, inclusive em quem nem sabe que tem essa propensão. Pessoas com tendência a depressão devem se preocupar com a dose, para não desencadear a doença. Em baixa dosagem, porém, a Cannabis pode ser positiva para os depressivos.” Segundo ele, todos nós somos viciados em alguma droga, seja tabaco, café, açúcar, chocolate… A questão é a dose: “A diferença entre veneno e remédio é a dose, já dizia Paracelso. Setenta por cento das pessoas que estão nos hospitais é porque são viciadas em açúcar.”

Durante a apresentação, para uma plateia formada por psicólogos, psiquiatras, médicos, cientistas do Instituto do Cérebro e público em geral, Sidarta mostrou uma tabela onde cientistas ingleses elencaram as drogas mais nocivas ao ser humano. Nela, o álcool ocupa o primeiro lugar do ranking, seguido pela heroína, crack/cocaína, metafetamina, cocaína, tabaco, anfetamina e pela Cannabis, nessa ordem. Segundo o estudo, o ecstasy, o LSD e o cogumelo ocupam a base da tabela em termos de nocividade. “Estudos mostram que o ecstasy é a melhor substância para tratar pessoas com síndromes de estresse pós-traumático. Muito melhor do que outras drogas comercializadas pelos laboratórios”, revelou.

Para Sidarta, o Governo não deveria interferir no direito de as pessoas consumirem drogas. “O que a população precisa é de informação e de campanhas de orientação. A maneira de proteger os jovens não é proibindo, é informando. A proibição apenas estimula o consumo e faz com que a população consuma drogas sem controle, contaminadas e degradadas, ainda mais nocivas à saúde”, afirmou. Segundo o cientista, que é especialista nas áreas de neuroetologia, neurobiologia molecular e neurofisiologia de sistemas, em termos de saúde e segurança, não faz sentido o consumo de bebida alcoólica ser liberado e o de drogas menos perigosas, como a maconha, ser proibido. Isso só aconteceria devido ao forte lobby das indústrias, principalmente a de bebidas, a de tabaco e a farmacêutica. Sidarta falou do incrível arsenal de remédios psiquiátricos lançados a todo momento no mercado e que, segundo ele, têm eficácia comprovada em pesquisas questionáveis, financiadas pelos próprios laboratórios, levando os médicos um processo de experimentação em cima dos pacientes. “As drogas psiquiátricas têm baixa eficácia. As relações com a indústria farmacêutica e a medicina precisam ser normatizadas. Hoje há uma grande promiscuidade que gira em torno do consumo”, afirmou.

Sobre sua posição frente à descriminalização das drogas, Sidarta foi claro: “Não gosto de usar o tempo liberação, que tem uma conotação ruim. Sou a favor da legalização com regulamentação. Assim como compramos uma bebida com as informações sobre teor de álcool, substâncias etc., sou a favor de podermos comprar drogas hoje consideradas ilegais com essas especificações, para sabermos exatamente o que estamos consumindo. A regulamentação permite ao usuário o controle sobre a procedência, dose, a concentração e saber se ele pertence ao grupo de risco para aquelas substâncias”.

Segundo Sidarta, existe um lobby político forte em Brasília, contra a liberação da Cannabis, onde destaca-se a atuação da ministra-chefe da Casa Civil, Gleicy Hoffman. Em maio deste ano, foi realizado em Brasília o Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade, que debateu os impactos do tráfico sobre diversos setores, as inovações em políticas públicas e os modelos do uso medicinal de maconha em outros países, entre outros pontos relacionados ao tema. No evento, intelectuais e ativistas constataram que a política proibicionista causa danos sociais gravíssimos, e elaboraram um documento – a Carta de Brasília em Defesa da Razão e da Vida – enviado aos três poderes da República, além do quarto poder, a imprensa. Em agosto de 2014, um novo congresso está programado, também em Brasília.

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