Como Ruy Castro se tornou um dos jornalistas e escritores mais lidos do país

 

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Ruy Castro conta no Midrash como se tornou um dos jornalistas e escritores mais lidos do país

No domingo, dia 26 de maio, o Midrash Centro Cultural inaugurou o BACKES-PAPO, série de encontros comandados pelo escritor, tradutor e professor de literatura Marcelo Backes. Nesse primeiro encontro, Backes, que acaba de lançar O Último Minuto (Companhia das Letras) recebeu o escritor e jornalista Ruy Castro, autor das biografias de Nelson Rodrigues (Anjo Pornográfico, Companhia das Letras), Garrincha (Estrela Solitária, Companhia das Letras), Carmen Miranda (Carmen, Companhia das Letras), entre outros sucessos editoriais. Muito bem humorado e descontraído, Ruy contou diversos casos que marcaram sua carreira de escritor e jornalista.

Nascido em 1948, Ruy Castro falou de uma de suas primeiras memórias da infância: “Aos quatro anos, me lembro de minha mãe rindo, lendo alguma coisa no jornal. Perguntei o que era, ela me colocou no colo e leu em voz alta pra mim. Era um conto de A Vida Como Ela É…, de Nelson Rodrigues, que o jornal Última Hora publicava diariamente. Daí em diante, ela sempre lia pra mim, até que um dia eu consegui ler o título sozinho. Me lembro direitinho da emoção de decifrar a linguagem escrita pela primeira vez”.
“Comecei a ler com Nelson Rodrigues. Fui, certamente, a criança que mais entendeu de adultério no mundo”, contou Ruy, entre risos da plateia. “Eu adorava aquilo tudo. Graças ao Nelson, aos cinco anos eu já sabia ler, escrever e bater à máquina”, disse. Logo mais, o gosto pela leitura passou a incluir as crônicas de futebol: “Nelson Rodrigues era míope e, mesmo assim, narrava uma partida como ninguém. Ele não via os jogadores, mas via a alma deles”. Ruy lembrou também que foi lendo Nelson Rodrigues que ele aprendeu algarismos romanos: os folhetins Asfalto Selvagem, publicados a partir de 1959, no mesmo jornal, eram numerados em romanos.
“Na minha casa, os jornais não iam para o lixo. Não se jogavam palavras fora”
Ruy, que começou como repórter em 1967, no Correio da Manhã, no Rio, e passou por todos os grandes veículos da imprensa carioca e paulistana, falou de sua simbiótica relação com os jornais: “Na minha casa, na infância, assinávamos cinco jornais, que iam virando pilhas e pilhas, imensas. Nada ia para o lixo, não se jogavam palavras fora. É uma mania de família. Até hoje tenho esse hábito. Guardo os exemplares da semana para ler tudo no domingo. Especialmente quando o Flamengo joga. Não gosto de ver o Flamengo ser atacado e, se isso acontece, recorro ao jornal. Quando o Flamengo ataca, volto para ver o jogo”, contou o flamenguista, autor de O Vermelho e o Negro, sobre a história do time de futebol carioca.
Como biógrafo de grande prestígio e sucesso, Ruy explicou seu processo de trabalho: “Quando estou fazendo uma biografia, me torno um obsessivo. Minha esposa (a escritora Heloisa Seixas) sofre, coitada. Na biografia do Nelson, passei meses angustiado porque não conseguia descobrir a marca da escarradeira que havia na redação do jornal onde ele trabalhava. Aí, minha mulher perguntou – Mas quem é que vai prestar atenção nisso? – Ninguém, eu sei que isso não vai fazer a mínima diferença para a história, mas não posso abrir mão disso. Se abrir mão de uma informação, começo a abrir mão de outra e mais outra, e aí não faz mais sentido. Descobrir uma informação que ninguém sabe tem um prazer quase sexual”.
Outro tema abordado pelo escritor da história da Bossa Nova (Chega de Saudade, Companhia das Letras) e de Ipanema (Ela é Carioca, Companhia das Letras) foi a busca de fontes: “O mais difícil numa biografia – e o que faz total diferença – é correr atrás de pessoas que conviveram com o personagem. Nássara, Evandro Lins e Silva e Barbosa Lima Sobrinho, por exemplo, conviveram com o pai de Nelson Rodrigues, e me passaram informações valiosíssimas para a biografia dele. Jorginho Guinle foi outra fonte fundamental para mim, no livro sobre Carmen Miranda.
“Garrincha foi um homem vitorioso, dilacerado pela bebida”
Sobre a biografia de Garrincha, Ruy revelou: “Queria fazer um livro que lidasse com o tema do alcoolismo e um dia tive um estalo: Garrincha. Garrincha foi um homem vitorioso, um vencedor, que foi dilacerado pela bebida. Mas ele não bebia porque sofria. Bebia por que sua família também bebia, seu pai, seu avô… Garrincha descendia dos índiosfulniôs, de Alagoas. Essa tribo tinha o antigo costume de dar uma mistura de cachaça, canela em pó e mel para as crianças pararem de chorar. Imagino que algumas deviam passar mal, e outras, com mais tolerância, podiam acabar desenvolvendo essa propensão ao alcoolismo. O Garrincha veio desse ambiente”.
Ainda sobre o jogador, Ruy contou um dos casos mais engraçados da noite: “Levei a ideia da biografia do Garrincha ao Luís Schwartz (editor da Companhia das Letras) e ele disse – Mas, Ruy, esse livro não vai vender nada. Cinquenta por cento dos leitores são mulheres, e mulheres não gostam de futebol. Você já começa com menos 50% do mercado. A outra metade você também perde, porque quem gosta de literatura não gosta de futebol – Mas não fiz um livro sobre futebol. Fiz um livro sobre uma pessoa com uma história de vida espetacular”.
“Nunca pedi autorização para escrever biografia”
Autor de romances históricos, como Era no Tempo do Rei (Alfaguarra), Ruy falou sobre seu compromisso com a verdade nos momentos em que escreve ficção e biografia. “Um dia perguntei à neta do Guimarães Rosa onde era a localização exata do Grande Sertão Veredas. – Seu avô deve ter ido muitas vezes lá, não é? – E ela respondeu – Meu avô foi uma vez só ao sertão. Ele gostava é de ir para a Europa todo ano. – Então tudo é inventado? – Sim, senão não seria ficção”, contou entre risos.
Sobre a polêmica em torno o projeto de lei que exige a autorização do retratado em biografias, Ruy revelou: “Nunca pedi autorização de nenhum dos parentes dos meus personagens para escrever sobre eles. Aliás, só fui conversar com eles para pegar mais informações quando o processo do livro estava bem adiantado. Não faz sentido pegar autorização, submeter o rascunho à aprovação e colocar um advogado para dizer o que pode e o que não pode ser revelado. O compromisso de um biógrafo é com a verdade. Até que essa questão da lei não esteja resolvida eu não me atrevo a fazer biografias.”
O próximo Backes-Papo no Midrash Centro Cultural será com o também jornalista e escritor Fausto Fawcett, em 30 de junho.
Júnia Azevedo
 
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