MIDRASH DEBATE ‘GENTRIFICAÇÃO’ NO RIO

Processo de transformação da identidade urbana é inevitável, mas moradores podem impor limites

Luiz Carlos Prestes Filho e Alexandre de Castro
Luiz Carlos Prestes Filho e Alexandre de Castro abrem o evento

A partir do anúncio de que o Rio de Janeiro seria a sede da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, diversas áreas da cidade vivenciam um acelerado processo de “gentrificação”. O termo, que vem do inglês “gentrification”, é o nome dado pelos especialistas ao enobrecimento de um determinado espaço urbano, quando pessoas de maior poder aquisitivo se mudam para lá, obrigando os moradores originais, de renda mais baixa, a se retirar. Para discutir o assunto, o Midrash Centro Cultural reuniu o sociólogo Luiz Werneck Vianna, o rapper Macarrão e o especialista em cultura da periferia Alexandre de Castro, mediados por Luiz Carlos Prestes Filho, especialista em Economia da Cultura. A palestra aconteceu dia 13 de agosto de 2014, seguida de uma visita guiada ao Vidigal, no dia 7 de setembro, para entender as transformações que vêm ocorrendo naquela comunidade.

Prestes abriu o evento, lembrando que renovar o espaço urbano, melhorar, ampliar e modernizar sua infraestrutura é um movimento bem-vindo, desde que todos possam se beneficiar disso, e não apenas uma parcela da população. Segundo ele, assim como na década de 1920, com as reformas do Prefeito Pereira Passos, os mais pobres estão sendo removidos de suas áreas de origem ou perdendo condições de seguir se sustentando naquelas localidades. “Os que não estavam incluídos continuam excluídos. Estamos atendendo as demandas da Fifa, do Comitê Olímpico, mas não a dos cidadãos, dos moradores, das pessoas que vivem aqui”, disse.

“A Zona Oeste virou depósito de pessoas indesejadas”

Alexandre de Castro, ex-interno da Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), rapper e mestre em Educação, Comunicação e Cultura em Periferias Urbanas pela FEBF/UERJ, é um dos novos “gentrificados” cariocas. Nascido e criado no centro do Rio, Alexandre se viu transferido para Senador Camará, na zona oeste da cidade. A mudança aconteceu por meio do programa de governo Minha Casa Minha Vida. “Ao receber a notificação de que eu tinha sido contemplado com uma casa própria, achei que a sorte enfim tinha batido a minha porta”, contou o rapper, que driblou a infância difícil, cursou jornalismo, mestrado e hoje se prepara para o doutorado. O que ele não sabia é que o novo lar fica no local de uma antiga fábrica de amianto, numa região abandonada pelo poder público, à mercê de traficantes, com uma vizinhança formada por pessoas de origens culturais absolutamente diversas, sem qualquer identidade com o passado dele.

Segundo Alexandre, na ânsia de cumprir prazos e atingir metas, as famílias tornam-se “números” nas mãos dos técnicos desses programas. “O poder público não tem o cuidado de ouvir as pessoas, conhecer suas raízes e alocá-las em áreas afins. Passam por cima de sua vida, sua história, com a conivência do Judiciário e dos demais órgãos fiscalizadores”, disse ele, lembrando de uma série de questões que deveriam ser consideradas pelos assistentes sociais em programas de remoção. “A Zona Oeste virou depósito de pessoas indesejadas. O poder público varre essas pessoas para áreas desconhecidas, à mercê de novos atores, como o tráfico ou a milícia. É uma bomba relógio que vai explodir a qualquer hora”, disse ele.

“Não quero o fuzil de ninguém na porta da minha casa, nem da polícia, nem do ladrão”

Macarrão, conhecido por ser personagem do documentário Fala Tu, de Guilherme Cezar Coelho, é outro que vivencia o lado cruel da gentrificação. Alexandre Magalhães, ou Macarrão, nasceu e foi criado na Vila Mimosa, tradicional área de prostituição, então situada no bairro do Estácio, no Centro do Rio. Com a remoção da “indesejável” vila na década de 1990, Macarrão começou uma via-crúcis por alguns dos bairros mais pobres e violentos da cidade. Despachado para Costa Barros, num local, segundo ele, impossível de se viver, mudou-se em seguida para o morro São Carlos. Pouco depois, uma guerra entre traficantes levou-o para a comunidade Santa Edwiges, mais conhecida como Cinco Bocas de Brás de Pina, na passarela 18 da Avenida Brasil, região notória nas páginas policiais. Não por acaso, ele diz que a insegurança é um dos maiores desafios das famílias removidas: “O simples fato do morador de uma área comandada por uma facção de traficantes ser deslocado para outra de um grupo rival é uma sentença de morte. Mesmo que essa pessoa não tenha qualquer envolvimento com o tráfico”. Macarrão também falou sobre a inépcia da polícia em áreas consideradas pacificadas: “A UPP funciona muito bem na TV. Dentro da favela, o policial age de forma diferente do que ele age aqui fora”, disse, referindo-se a casos de abusos, truculência e preconceito. “Não quero o fuzil de ninguém na porta da minha casa, nem da polícia, nem do ladrão”.

Macarrão destacou também a importância do hip hop como alternativa ao poder de atração do tráfico sobre jovens de baixa renda. Afinal, foi através desse gênero musical, que protesta contra o preconceito racial, a miséria e a exclusão, que ele sublimou a própria infância difícil, transformando a dura realidade em arte. Depois de trabalhar como apontador de jogo do bicho, de se envolver em “muita coisa ruim”, hoje, aos 44 anos, ele ganha a vida como “cronista do cotidiano”, como é conhecido. “O hip hop mudou a minha vida”, diz o rapper e roteirista, hoje casado, com uma filha formada, e à espera do quinto filho. “O rap tem a capacidade de dar algo a mais, outra referência. É como o ‘passinho’ hoje. São movimentos que vêm no sentido oposto ao tráfico”, disse referindo-se a uma variação do funk, novo sucesso entre jovens da periferia.

Luiz Werneck Vianna e Macarrão
O sociólogo Luiz Werneck Vianna e o rapper Macarrão

“Não se pode mexer numa cidade sem consultar os cidadãos, mas esses cidadãos precisam estar organizados”

O sociólogo Luiz Werneck Vianna encerrou o debate com um panorama das causas do processo singular de gentrificação na cidade. Segundo o professor e pesquisador do Departamento de Sociologia e Política da PUC (Pontifícia Universidade Católica) Rio, a partir das décadas de 1970 e 1980, o processo de capitalização no Brasil foi tão brutal e vigoroso que a sociedade não teve a capacidade de se auto-organizar. Para ele, os relatos de Alexandre de Castro e de Macarrão denunciam a natureza de um processo que trouxe benefícios, mas criou uma sociedade imobilizada e impotente. “Há um deserto de cidadania na vida social brasileira. Mexe-se na cidade sem conversar com os citadinos”, afirmou, lembrando que, em Barcelona e em Londres, a população participou do processo. “Nosso capitalismo é potente em termos econômicos e infantil em termos políticos”, disse.

Coordenador do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES), Vianna lembrou que o Brasil acaba de vencer a disputa para sediar o Congresso Mundial da União Internacional de Arquitetos (UIA) de 2020, evento de enorme relevância mundial:  “Essa é uma grande oportunidade. A sociedade precisa começar a se fazer presente nesse congresso, levando teses, denúncias, discussões. É preciso fazer com que a cidade seja discutida”. “A gentrificação é um processo inexorável, mas as pessoas podem se organizar. Os moradores têm de se defender, impondo limites e se regulamentando. Não se pode mexer numa cidade sem consultar os cidadãos, mas esses cidadãos precisam estar organizados”, concluiu.

(Júnia Azevedo)

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